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Chuteiras da Copa do Mundo 2026

  • Foto do escritor: Jonathan Escouto
    Jonathan Escouto
  • 2 de jul.
  • 7 min de leitura

Se alguém assistir apenas cinco minutos de qualquer jogo da Copa do Mundo de 2026, provavelmente vai notar uma coisa antes mesmo de identificar os jogadores: quase todo mundo está usando chuteiras rosa. Não é coincidência!


Todas as principais marcas: Nike, Adidas, Puma e New Balance lançaram coleções especiais de chuteiras para a competição e praticamente todos os jogadores de alto nível entraram na Copa com modelos dessas marcas.


Algumas marcas regionais também ganham visibilidade: por exemplo, a Pirma (empresa mexicana) que patrocina jogadores da seleção do México e da Colômbia.

México copa do mundo

Marca que eu acompanho e tenho muito carinho, porque já trabalhei como social media da FC Fútbol Total, uma loja colombiana, representante oficial que revende Pirma na Colômbia e na América do Sul inteira. Inclusive, o único par de chuteiras que eu tenho aqui em casa é da Pirma, modelo Império, linda, uma excelente chuteira. A ideia era não ter usado pra deixar na decoração aqui, mas acabei usando. Fiz 2 gols com ela ano passado 👀. Enfim, acessem o Instagram deles: @fcfutboltotal para conhecer. Eles também têm a FC Protect com meia antiderrapante e caneleiras personalizadas que também estão presentes na Copa do Mundo.


Pirma

Outra marca que eu considero regional ainda, é a norte-americana Skechers, que está presente na Copa do Mundo com o Harry Kane, artilheiro da seleção inglesa. Fundada em 1992 na Califórnia, a Skechers é a atual 3ª maior empresa de calçados do mundo, ficando atrás apenas da Nike e da Adidas. Mas no futebol ainda é desconhecida. Eu mesmo só fui conhecer porque é a marca da chuteira do Kane.


Herry Kane Skechers

Coleções especiais


No início do Mundial, já era possível listar as principais marcas em ação: a “tríade” Nike – Adidas – Puma liderou, mas New Balance, Mizuno e Skechers também apresentaram edições especiais. 


Cada uma delas criou um “pack” especial para a Copa. Por exemplo, a Adidas, tradicional líder em vestuário esportivo lançou o pacote “Road to Glory”, a Nike o “Breakout”, a Puma mantém seu legado histórico do futebol com o pack “Showtime”, a New Balance trouxe o “Pure Ambition” dando visibilidade principalmente para jogadores de seleções emergentes, e a Skechers com o “Sunset”, também tem a Mizuno, tradicional marca japonesa aparecendo pontualmente com o “Prism White Pack".


Sim, a maioria das chuteiras são rosa… Daqui um pouco vou focar nesse ponto.

Em resumo, todas as grandes marcas trataram a Copa do Mundo como a vitrine perfeita para seus produtos. 


Chuteiras rosa: ciência e estratégia de cores Além dos craques e dos campeões, algumas edições de Copa do Mundo ficam marcadas pela bola, por uma camisa, por um golaço... Em 2026, até aqui é a Copa das chuteiras rosa.


chuteiras rosa

O curioso é que esse movimento nasceu de uma busca muito clara por destaque. Em um gramado verde, o rosa produz contraste imediato. A lógica visual é direta e, para marcas esportivas, extremamente eficiente. O olho reconhece rápido. A TV amplifica. A repetição transforma o produto em referência.

Existe uma camada científica nessa escolha, e ela ajuda a explicar por que a tendência ganhou tanta força. Segundo a teoria das cores, rosa e verde ocupam posições complementares no círculo cromático. Juntos, produzem um choque visual forte, que salta do campo de forma quase automática. Em um evento como a Copa, onde tudo disputa percepção o tempo inteiro, essa combinação vira ativo.

A WGSN já havia apontado o ‘Electric Fuchsia’ como uma cor-chave para 2026. Um rosa vibrante, entre o neon e o roxo, associado a uma energia progressista e transformadora. Ou seja, a tendência não apareceu por acaso. Ela já estava sendo lida com antecedência por quem observa moda, consumo e design de perto.


cor de 2027

As marcas fizeram o que costumam fazer quando o evento é grande demais para errar: alinharam seus lançamentos com a mesma linguagem. Nike, Adidas, Puma, New Balance caminharam na mesma direção. O que começou como tentativa de chamar atenção acabou virando uma espécie de idioma comum da Copa.

E aqui está a parte mais interessante do ponto de vista do branding.

Quando todo mundo tenta ser distinto ao mesmo tempo, a distinção perde força. O que nasceu como escolha ousada rapidamente se transforma em padrão, e a exceção vira regra. 


Essa virada diz muito sobre o mercado esportivo.


As marcas continuam buscando singularidade, mas fazem isso dentro de um ambiente cada vez mais padronizado pela própria lógica da competição. O resultado é quase paradoxal: a estratégia de diferenciação cria uniformidade visual. E essa uniformidade, por sua vez, reforça a marca do evento mais do que a marca do produto.

Na prática, a Copa segue funcionando como um laboratório. A chuteira deixa de ser apenas equipamento e passa a ser um sinal. 

A tendência das chuteiras rosa também ajuda a ler outra coisa que vem se tornando central no marketing esportivo: a relação entre estética e coerência.

Na edição #11 da Newsletter D5, o foco foi a autenticidade, (confira o post completo sobre o valor da autenticidade em uma Copa do Mundo). O ponto principal é simples: o público reconhece quando uma proposta faz sentido dentro da identidade que carrega. Com as chuteiras rosa, acontece algo parecido. A cor só funciona porque encontra contexto. Ela chama atenção porque dialoga com o momento. E permanece porque foi incorporada ao repertório visual da Copa.

Quando uma imagem nasce alinhada ao ambiente, ela parece natural. Quando surge apenas para se destacar, o risco de artificialidade cresce rápido. O público percebe isso. Em uma Copa, a percepção fica ainda mais sensível porque tudo acontece sob uma lente global.

Talvez seja por isso que as chuteiras rosa tenham se tornado um símbolo tão forte desta edição. Elas mostram como branding, cultura e comportamento de consumo podem se encontrar num detalhe aparentemente simples. Um detalhe que nasce como estratégia de visibilidade, atravessa a lógica do design e termina ocupando espaço na memória do torneio.

No fim, é bem mais amplo do que a cor em si. Quase filosófico? Acho que exagerei… Adidas x Puma 

Um “clássico” do marketing esportivo é o caso Adidas x Puma e as chuteiras do Pelé na Copa de 70. As duas maiores marcas do setor na época nasceram da briga dos irmãos alemães, Adi Dassler, fundador da Adidas, e Rudolf da Puma. Na Copa do Mundo de 1970, aconteceu uma das jogadas mercadológicas mais geniais e cheias de mistérios da história do futebol. Existia o “Pacto Pelé”, um acordo entre Adidas e Puma para não disputar o maior astro daquele Mundial, evitando um leilão, uma guerra de preços que acabaria falindo as duas marcas. Mas a Puma quebrou o acordo e ofereceu a Pelé cerca de US$ 120 mil para entrar em campo usando Puma, sob condição inusitada, que ele pedisse um minuto para amarrar os cadarços logo no início do jogo contra o Peru.


O Rei fez exatamente isso e, estrategicamente, atrasou o pontapé por alguns instantes, atraindo todas as câmeras para seus pés. Milhões de pessoas viram Pelé agachado amarrando as chuteiras Puma antes do apito inicial. Para garantir, segundo o especialista Joe Pompliano, a Puma teria subornado um camera-man para focar na cena. O resultado foi histórico: naquele instante, o mundo inteiro ficou sabendo implicitamente que Pelé calçava Puma. Em seguida, o Brasil ganhou o título e o nome da marca alemã ficou eternizado. Foi um dos primeiros cases globais de patrocínio esportivo de um atleta.


Pelé - Puma - copa de 70

Uma outra curiosidade envolvendo essa história é que Pelé teria usado chuteiras Adidas até então, mas sempre escondia as 3 listras justamente por não haver um acordo de patrocínio. Segundo Tostão, companheiro do Rei no esquadrão de 70, mesmo depois do acordo com a Puma, Pelé teria continuado usando Adidas por achar mais confortável e que customizava suas chuteiras Adidas com a marca da Puma para jogar.


Na sequência, nos anos 1980, Puma manteve seu reinado com Maradona. O craque argentino foi um dos principais nomes da marca por muitos anos, utilizando o modelo Puma King, Maradona conquistou a Copa do Mundo de 1986 também no México e marcou o histórico "gol do século" contra a Inglaterra.


maradona - puma king - copa 86

A disputa histórica dos irmãos Dassler está até hoje na memória do futebol, principalmente para quem trabalha com marketing esportivo, provando que uma chuteira pode valer ouro em termos de legado.

🚨 Dica: A história dessa rivalidade está muito bem contada na série Guerra dos Tênis: Adidas x Puma disponível na Disney+


Guerra dos Tênis: Adidas x Puma

Caso Olise

Alguns jogadores como o francês Michael Olise viram case por si só. Ele simplesmente dispensa patrocínios de chuteiras. Em 2024 o jogador teria recusado uma oferta milionária da New Balance.


Na última temporada ele usou vários modelos, geralmente combinando com as cores do uniforme.

Olise

Enquanto boa parte dos principais jogadores desta Copa do Mundo usa chuteiras rosas, ele ainda prefere a autenticidade. 


Além de personalizar alguns modelos, a chuteira que ele mais usa é o modelo Nike Hypervenom Phantom III, que inclusive já saiu de linha.


Alguns portais especializados acreditam que isso pode ser um acordo secreto com a Nike.


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Utilizei as chuteiras da Copa do Mundo como cenário aqui para falar sobre, como autenticidade e estratégia estética (conceito que pretendo explorar em breve) contam tanto quanto performance em campo. E como as marcas de material esportivo estão atentas às tendências, ao comportamento do consumidor e ao storytelling


Antes de finalizar, acho que faz todo o sentido trazer aqui também a teoria dos 85 /15 que o Caio Amato, presidente global da Oakley já mencionou em diversas entrevistas. Ele explica que, em relação ao amor por uma marca, e ao comportamento do consumidor na lei de adoção de inovação, cerca de 15% do público é composto por early adopters (quem sempre busca o lançamento mais recente), enquanto os outros 85% precisam de uma validação maior antes de consumir um produto. Ele utiliza esse raciocínio para explicar a estratégia da Oakley em equilibrar produtos disruptivos (para os 15%) com produtos comerciais de maior volume (para os 85%).


Podemos pensar que no caso específico de Adidas e Puma, o 15 é o Messi e Neymar (com seus modelos personalizados) e o 85 são todos os outros jogadores de chuteira rosa?

Provavelmente, daqui a vinte anos, ninguém lembre exatamente qual era o pack da Nike ou da Adidas em 2026. Mas muita gente vai lembrar que essa foi "a Copa das chuteiras rosas".

E para fechar, acredito que a próxima chuteira que entrará para a história de uma Copa, é a que estiver associada a um jogador, assim como lá em 1970 com o Rei Pelé.

As marcas correm mais risco? Sim! Porque fica dependente do resultado esportivo, da história de cada jogo. Eu sempre bato nessa tecla de tentar não depender do campo, mas também confesso que esse é o grande charme do marketing esportivo, se for tudo calculado e planejado, perde a graça. E para ficar marcado na história do esporte o risco tem que ser alto mesmo.

📲 (Quanto vale entrar para a história?) Uma pequena homenagem ao meu primeiro post aqui no blog. 🥹 


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Referências:


Livro - Invasão de campo: Adidas, Puma e os bastidores do esporte moderno: https://link.amazon/B02X50055 




 
 
 

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