Pausa de hidratação
- Jonathan Escouto
- há 2 dias
- 4 min de leitura
As pausas de hidratação da Copa do Mundo 2026 são realmente para hidratar, são intervalos comerciais ou são paradas técnicas?
Uma das novidades dessa Copa do Mundo é a pausa de hidratação.
Na teoria, ela serve para proteger os atletas das altas temperaturas do verão norte-americano, e é comprovado pela literatura, que existem muitos benefícios nessas pausas de hidratação para o desempenho e a recuperação dos atletas.

Pausa técnica
A pausa de hidratação também pode ser considerada uma pausa técnica. Muitos treinadores e suas comissões aproveitam as pausas para reorganizar o time em campo.Estudos iniciais já mostram impacto tático!
A Driblab analisou as 28 primeiras partidas da Copa do Mundo e constatou que 78,6% das pausas de hidratação alteraram o fluxo do jogo: A maioria das equipes, principalmente as que não estavam muito bem em campo, usaram o tempo para ajustes estratégicos e substituições. (🇧🇷 só o nosso Brasa fez uma alteração segundos antes da pausa, parabéns aos envolvidos.)
Alguns treinadores (Deschamps, Bielsa, Tuchel) afirmam que as interrupções desmantelam o ritmo do futebol e que podem prejudicar as jogadas em andamento. O próprio Globo Esporte apontou que, em 35% das pausas, o jogo mudou completamente de figura (gol logo após reinício, domínio de posse de bola invertida, etc.). Isso levanta questões de competitividade: por exemplo, Marrocos estava ganhando de 1x0 do Brasil, e logo em seguida da pausa de hidratação sofreu o empate.
Intervalo comercial
Pela primeira vez as emissoras tiveram a oportunidade de fazer um intervalo comercial durante cada jogo da Copa do Mundo. Além do bom e velho show do intervalo.
Durante cada pausa de aproximadamente 3 minutos, as emissoras puderam mostrar mais de 2 minutos de comerciais em uma tela separada ou mostrar mensagens de apoiadores oficiais da FIFA.
Muito natural para quem está acostumado a consumir a NFL e a NBA, que têm várias pausas com comerciais. Já faz parte da experiência.
Já falei sobre isso no post sobre o crescimento do Soccer nos Estados Unidos.
Mas no futebol, é uma mudança muito significativa, tanto esportiva, de acordo com os dados que eu trouxe anteriormente, quanto comercialmente.
Alguns analistas acreditam que os slots mais valiosos poderiam gerar até 9 milhões de dólares por jogo.
Mas eu considero, que para o marketing esportivo, o grande desafio aqui é manter a experiência de quem tá acostumado a consumir o futebol nos padrões tradicionais.
Confesso que no estádio eu acho muito ruim, e acredito que do outro lado do balcão, nas empresas e nas agências a preocupação deveria ser a atenção real de quem está assistindo o jogo, em casa principalmente. Já é difícil não perder o foco do jogo com a bola rolando, imagina com uma pausa, é praticamente impossível não pegar o celular…
Aí eu fico curioso também com os relatórios, a emissora ou agência vai mostrar os números de alcance e audiência para os anunciantes, mas quem realmente prestou a atenção nos anúncios durante a pausa de hidratação?
Falando nisso, vocês viram que a Netflix vai colocar câmeras em algumas casas para observar e medir se a audiência realmente assiste os anúncios? 👀
Pois é… 250 casas foram selecionadas e receberam um dispositivo com uma câmera HD que rastreia o olhar e analisa o foco visual.
O sistema classifica o nível de atenção em 3 categorias: ativo (olhos fixos na tela), passivo (olhar desviado, mas no ambiente) ou nulo (a pessoa saiu ou está no celular).
A Netflix garante que os dados são anônimos, não há gravação para análise humana e o sistema é programado para não capturar imagens de crianças.
Não duvido que logo tenha algo semelhante durante as transmissões esportivas. A própria Netflix está investindo cada vez mais em esportes ao vivo e já está na disputa para transmitir a próxima Copa do Mundo.

De qualquer forma, as pausas de hidratação têm potencial para fortalecer os retornos comerciais e aumentar o valor dos direitos de transmissão.
A FIFA diz que as pausas são obrigatórias em todos os jogos para evitar que algumas seleções tenham vantagem competitiva.
No Mundial de Clubes de 2025 a pausa era determinada de acordo com a temperatura.
Se do ponto de vista do comportamento ainda existem dúvidas sobre a atenção do público, do ponto de vista financeiro as contas parecem muito mais simples.
A Fox Sports, emissora oficial da Copa do Mundo nos Estados Unidos, cobra cerca de 200 mil dólares para um comercial de 30 segundos durante essas pausas de hidratação, e esse número poderia chegar até 750 mil dólares se fosse durante algum jogo da seleção dos EUA, porque naturalmente a audiência foi maior do que a de outros jogos. Se estimarmos que cada comercial de 30 segundos custa na média 300 mil dólares, duas pausas de hidratação por jogo e quatro comerciais durante cada pausa de hidratação, isso significa que são 8 comerciais por pausa de hidratação por jogo em 104 jogos.
No final das contas, sendo um total de 208 pausas de hidratação e 832 espaços publicitários, a Fox Sports pode faturar cerca de 250 milhões de dólares. Em projeções mais otimistas de mercado, esse valor pode chegar entre 500 milhões e 850 milhões de dólares.
E o curioso é que a Fox Sports pagou “apenas” 485 milhões de dólares para transmitir a Copa do Mundo inteira.

Essas pausas de hidratação vão cumprir uma função real em alguns jogos (que é hidratar) e nunca mais vão sair do futebol.
Muitos treinadores ainda vão reclamar, a FIFA vai cobrar cada vez mais caro das emissoras pelos direitos de transmissão e as emissoras cada vez mais caro pelo espaço publicitário.
No fim das contas, talvez a pergunta nunca tenha sido se as pausas de hidratação são esportivas ou comerciais.
É tudo ao mesmo tempo!
Protegem os atletas, oferecem a oportunidade de ajustes táticos e criam um ativo comercial que simplesmente não existia.
Talvez o problema não seja a pausa. Talvez seja simplesmente o nome dela.
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Referências: FIFA World Cup 2026™ Blog
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