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O mapa digital do futebol latino-americano

Foto do escritor: Jonathan Escouto
Jonathan Escouto
20 de ago.
11 min de leitura

O futebol latino-americano está construindo um mapa digital bem diferente daquele que conhecíamos há alguns anos atrás.


Os maiores clubes continuam concentrando boa parte da audiência, mas o crescimento nas redes sociais começa a mostrar outras coisas: clubes tradicionais encontrando novas formas de conversar com torcedores, mercados emergentes ganhando relevância e clubes relativamente novos disputando espaço.


Uma pesquisa da Emplifi em parceria com El Míster analisou o comportamento digital dos clubes de 12 mercados das Américas durante a temporada 2025-26, considerando Facebook, Instagram, X e YouTube entre junho de 2025 e junho de 2026.


A pesquisa analisou 6,03 bilhões de interações, 548 milhões de membros em comunidades digitais e aproximadamente 1 milhão de conteúdos publicados pelos clubes analisados.


INTER MIAMI

O futebol brasileiro domina o ambiente digital latino-americano


Flamengo, Corinthians e Palmeiras, sozinhos, somaram 2 bilhões de interações no período. Juntos, representam cerca de 33% de todas as interações geradas pelo futebol nas Américas. Nenhum outro país apresenta uma concentração semelhante.


Mas o ranking também mostra que não basta olhar para quem já tem a maior torcida.


Quando analisamos o crescimento, aparecem histórias muito mais interessantes.


O Brasil domina o futebol latino-americano


Mas o mapa está mudando…


O Flamengo terminou o período com 950,9 milhões de interações, somando Facebook, Instagram, X e YouTube.


Sozinho, o clube foi responsável por quase 16% de todas as interações contabilizadas pela pesquisa nas Américas. Também liderou o crescimento no Instagram, com 2,9 milhões de novos seguidores, e no YouTube, com 710 mil novos inscritos. Ao todo, a comunidade digital do clube cresceu 2,4 milhões no período.


O Corinthians aparece na sequência, com 678,5 milhões de interações, enquanto o Palmeiras alcançou 373,2 milhões.


Até aqui, nada muito surpreendente. O Corinthians, que, na minha opinião, tem a maior torcida atuante de fato, o Flamengo nem precisa explicar, e o Palmeiras, que é um multicampeão, talvez o mais regular dos últimos 10 anos.


Enfim, são três das maiores marcas esportivas do continente sem dúvidas.


Mas o mais interessante começa aparecer quando olhamos para o ranking de crescimento:


MAPA DIGITAL DO FUTEBOL

Entre os 15 clubes que mais aumentaram suas comunidades digitais na temporada, aparecem 3 brasileiros no top 5. Inter Miami, Flamengo, Corinthians, Santos e Boca Juniors lideram o ranking apresentado pela pesquisa, seguidos por, Chicago Fire e LAFC, entre outros clubes da Major League Soccer e de diferentes ligas do futebol latino americano.


O Inter Miami cresceu 3,9 milhões de seguidores no período analisado. O Flamengo, 2,4 milhões, o Corinthians, 1,7 milhão, e o Santos, 1,5 milhão.


Isso ajuda a entender uma transformação importante.


O tamanho da comunidade continua sendo relevante, mas a capacidade de crescer também virou um indicador estratégico.


Caso Flamengo


O Mengão é um grande exemplo dessa transformação!


O clube não está apenas tentando aumentar sua audiência. Está reorganizando a maneira como essa audiência se relaciona com a marca.


URU HUB - FLAMENGO

Recentemente, o Flamengo apresentou uma nova estratégia de marca e negócios, o Hub Digital: URU.HUB, voltada à produção de conteúdo, e a campanha "Flamengo Sem Intervalo". Tudo baseado na mistura entre esporte, entretenimento e conteúdo (sportainment).


O Flamengo tem mais de 90 milhões de seguidores no total e registrou cerca de 400 milhões de dólares em receita em 2025.


(segundo informações apresentadas pelo próprio clube durante o lançamento da nova estratégia).


Mas existe uma camada ainda mais importante nessa mudança.


Durante muito tempo, os clubes construíram suas operações digitais de maneira fragmentada.


Uma empresa especializada cuidava do sócio-torcedor, outra da venda de ingressos, outra do e-commerce…


Para o torcedor, isso significava entrar em diferentes ambientes para fazer coisas que pertencem à mesma relação com o clube.


Para o clube, significava ter dados espalhados em diferentes sistemas.


O novo Hub Digital do Flamengo parte de uma lógica diferente: centralizar serviços e, principalmente, aproximar as diferentes interações do torcedor dentro de um mesmo ecossistema. A proposta inicial conecta conteúdo, loja oficial e prevê a integração de outras plataformas digitais.


E aqui existe uma discussão que considero muito mais importante do que simplesmente "ter uma plataforma própria e única".


Dados!


Quando o clube consegue entender que conteúdo o torcedor consome, quais produtos procura, como funciona a experiência de compra, a audiência deixa de ser apenas um número nas redes sociais e tudo isso começa a se transformar em inteligência de negócio.


Ter 40 milhões de seguidores espalhados em Instagram, YouTube, TikTok e outras plataformas é uma coisa.


Conseguir relacionar parte desse público a comportamentos, interesses, consumo e experiências dentro de um ecossistema próprio é outra.


E é isso que muda o valor comercial da audiência.


Para o patrocinador não interessa só saber quantas pessoas seguem o clube.


Ele quer saber quem são essas pessoas, como se comportam e como podem agregar valor para essa audiência.


O caso do Santos é interessante por outro motivo


O clube aparece entre os cinco primeiros colocados no ranking de crescimento digital da temporada, com aproximadamente 1,5 milhão de novos seguidores, somando todas as plataformas analisadas.


Isso chama atenção porque o Santos não possui hoje o mesmo tamanho de torcida do Flamengo e do Corinthians.


Mesmo assim, conseguiu crescer de maneira relevante.


E existe uma conexão interessante com outros dados divulgados recentemente no Data Peixe, um levantamento sobre o perfil da torcida santista, desenvolvido pela 2Morrow, empresa de tecnologia responsável pela gestão do programa Sócio Rei.


(Empresa onde já fui social media também, um abraço para todos os envolvidos na pesquisa, parabéns pelo trabalho!)


O estudo mostra uma presença significativa de torcedores mais jovens na base de dados do clube e ajuda a compreender como o Santos pode trabalhar sua relação com as novas gerações.


data peixe

Alguns dados do relatório:

- Mais da metade da torcida do Santos (57,4%) tem menos de 35 anos;

- 28,17% têm entre 25 e 34 anos;

- 20,1% têm entre 16 e 24 anos; 

- 9,2% têm até 15 anos.

Ou seja: o Santos não está apenas crescendo em número absoluto de seguidores. Está crescendo justamente na faixa etária que mais importa para o futuro comercial de qualquer clube. 


É a geração que consome e se relaciona com as marcas de formas diferentes das gerações anteriores e vai sustentar a base de sócio-torcedor e patrocínio nos próximos 15-20 anos.


Isso pode ser o resultado de uma série de iniciativas do clube voltadas ao público infantil, além da repercussão em torno dos meninos da vila, categoria de base histórica do clube e da repercussão digital de nomes como Neymar, que criam um funil consistente entre a experiência física no estádio e o comportamento digital do torcedor mais jovem.


Existe uma diferença entre ter uma torcida historicamente grande e conseguir manter essa torcida relevante para as próximas gerações.


O Santos possui uma das marcas mais reconhecidas do futebol mundial, uma história incomparável e uma associação cultural que ultrapassa o próprio futebol.

Efeito Rei Pelé e efeito Neymar…


Mas a tradição, sozinha, não garante crescimento digital!


É preciso transformar essa história em conteúdo que faça sentido para quem está chegando agora. E o clube tem encontrado alguns caminhos interessantes para isso.


Além da volta do Neymar, um exemplo recente é a collab da Umbro com a banda Charlie Brown Jr., lançando um uniforme que resgata referências da cultura de Santos e elementos visuais históricos do próprio clube.



Camisa do Santos - Charlie Brown Jr

É exatamente esse tipo de conexão que pode ajudar uma marca esportiva a atravessar gerações.


Mas tradição também não é tudo!


Se o Flamengo representa a transformação de um gigante tradicional em plataforma de entretenimento, e o Santos mostra como uma marca histórica pode continuar encontrando espaço entre públicos mais jovens, o Inter Miami e a própria MLS são dois outsiders que representam praticamente o caminho inverso.


O clube foi fundado em 2018 e disputou sua primeira temporada na MLS em 2020.

Mesmo assim, aparece no topo do ranking de crescimento digital das Américas, com 3,9 milhões de novos seguidores no período analisado.


E fica difícil não relacionar esse crescimento com Lionel Messi.


O "efeito Messi" já é quase um estudo de caso obrigatório. Antes da contratação, o Inter Miami tinha cerca de 1 milhão de seguidores no Instagram. Em menos de 24 horas depois do anúncio, esse número saltou para mais de 5 milhões. Hoje o clube ultrapassa 17 milhões de seguidores só nessa rede, atrás apenas de três franquias da NBA (Warriors, Lakers e Cavaliers) entre todos os times esportivos norte-americanos.


E o impacto não ficou só nas redes sociais. 


A final da MLS Cup 2025, com o Inter Miami campeão, reuniu 4,6 milhões de espectadores somando todas as plataformas, a audiência mais jovem já registrada em uma decisão de futebol, com cerca de 70% dos espectadores com menos de 45 anos, gerando também 798 milhões de impressões em redes sociais, recorde histórico da competição.


mls cup 2025

Mas reduzir o fenômeno do Inter Miami ao Messi seria simplificar demais esse crescimento.


O clube conseguiu reunir Messi, Luis Suárez, outras estrelas internacionais, David Beckham como proprietário e uma estratégia de marca construída para transformar Miami em um ponto de encontro entre futebol, entretenimento, cultura e negócios.


Em março de 2026, o Inter Miami e o Nubank anunciaram uma parceria de longo prazo que transformou o novo estádio do clube em Nu Stadium. O acordo inclui naming rights, presença da marca na camisa e outras propriedades comerciais.


O estádio tem capacidade para 26.700 pessoas e faz parte do Miami Freedom Park, um projeto que pretende combinar esporte, entretenimento, negócios e espaços públicos de lazer.


O mais interessante aqui é que o patrocínio não foi pensado apenas como exposição.


O Nubank está utilizando a parceria para ampliar sua presença nos Estados Unidos, enquanto o Inter Miami utiliza a força da marca para construir um ecossistema comercial mais sofisticado.


É uma relação em que os dois lados têm objetivos que ultrapassam o futebol.


E esse é um dos motivos pelos quais o Inter Miami merece ser acompanhado com atenção pelo mercado do futebol latino-americano.


Leia também o post: Nubank e Inter Miami


O que o ranking revela sobre o futebol latino-americano?


Voltando para a pesquisa da Emplifi e El Míster, existe uma curiosidade interessante.


O Flamengo é líder em várias métricas de crescimento, mas não aparece entre os cinco que mais cresceram especificamente no Facebook ou no X.


Isso parece contraditório até olharmos para o comportamento das plataformas.


O clube já possui uma base muito consolidada nesses ambientes. O crescimento mais relevante acontece agora em Instagram e YouTube, justamente plataformas importantes para o consumo de conteúdo audiovisual e para a disputa pela atenção das gerações mais jovens.


Essa informação ajuda a tirar uma conclusão importante:


não existe mais uma estratégia digital única!


Cada plataforma possui uma dinâmica diferente.

Cada geração consome conteúdo de uma maneira diferente.


E cada mercado tem suas próprias características.


Por isso, comparar apenas o número total de seguidores pode esconder uma parte importante da história.


O que interessa cada vez mais é entender onde o clube está crescendo, quem está chegando e o que ele está fazendo com esse crescimento.


O futebol latino-americano não é um único mercado


Outro ponto interessante do ranking é a presença de clubes de diferentes mercados.


Além dos brasileiros, aparecem Boca Juniors e Racing, da Argentina; Toluca, Chivas e outros representantes mexicanos; Deportivo Garcilaso e Alianza Lima, do Peru; além de Vancouver, LAFC, Chicago Fire, NYCFC e Inter Miami, representando o ecossistema norte-americano.


O resultado é um mapa bastante fragmentado.


E isso é uma oportunidade!


Para quem trabalha com marketing esportivo na América Latina, não faz mais sentido olhar apenas para os grandes mercados tradicionais.


Existem comunidades digitais crescendo em diferentes países e clubes que conseguem construir relevância mesmo sem possuir o tamanho de Flamengo, Boca Juniors ou Club América.


A questão passa a ser menos "qual clube tem mais torcedores?" e mais:

qual clube consegue transformar sua comunidade em uma propriedade digital relevante?


Essa diferença é importante para os patrocinadores.


Uma marca pode encontrar valor em uma audiência gigantesca, mas também pode encontrar valor em uma comunidade menor e extremamente engajada.


Pode encontrar uma oportunidade em um clube tradicional ou em uma organização que esteja construindo uma identidade nova.


O patrocinador pode comprar alcance, mas também pode comprar contexto. E, principalmente, pode ajudar a construir um ecossistema.


O novo valor de um clube pode estar fora do campo


É aqui que o conceito de ecossistema esportivo começa a fazer sentido.


Um clube não precisa mais ser apenas uma organização que disputa campeonatos.


Ele pode produzir conteúdo, vender produtos, organizar experiências, operar comunidades, oferecer benefícios exclusivos, e construir relações diretas com seus torcedores.


O esporte continua sendo o centro.

Mas já não precisa ser o único produto.


O Flamengo é um exemplo evidente dessa transformação ao estruturar uma estratégia de sportainment e integrar diferentes frentes de conteúdo e negócios.


O Inter Miami mostra como uma organização relativamente jovem pode construir uma marca global rapidamente quando combina celebridades do esporte, entretenimento, experiência e uma estratégia comercial agressiva.


O Santos mostra que a tradição pode continuar sendo um ativo relevante quando consegue se comunicar com novas gerações.


E o próprio mapa do futebol latino-americano apresenta outros exemplos que merecem ser observados com atenção.


O Boca Juniors, por exemplo, continua sendo uma das marcas esportivas mais reconhecidas do mundo e tem desenvolvido uma comunicação digital muito particular, incluindo iniciativas que transformam seus próprios espaços físicos e sua identidade cultural em conteúdo.


O que clubes de outros esportes podem aprender com isso?


Apesar de todos os exemplos desta análise serem do futebol, a lógica não pertence exclusivamente ao futebol.


Basquete, vôlei, esportes olímpicos e outras modalidades esportivas também podem construir comunidades digitais fortes quando deixam de pensar apenas em transmissão de competição e passam a trabalhar a relação com o público durante o ano inteiro.


flamengo basquete

Outro ponto que também deve ser analisado:


O tamanho da torcida ajuda, mas não determina sozinho o tamanho da oportunidade digital.


O Santos consegue crescer porque existe uma história que pode ser reinterpretada para novas gerações.


O Inter Miami porque construiu uma marca que não depende de décadas de tradição.


E o Flamengo porque possui uma escala gigantesca e está tentando transformar essa audiência em um ecossistema integrado.


São estratégias diferentes para desafios diferentes.


E isso é importante para qualquer clube ou organização esportiva que esteja tentando crescer no digital.


Não existe uma fórmula única.


Existe a capacidade de entender qual é o ativo que você já possui e como transformá-lo em uma experiência que as pessoas tenham vontade de acompanhar.


Pode ser a cidade.

Pode ser a história.

Pode ser um atleta.

Pode ser a cultura.


O desafio está em transformar esses ativos em conteúdo, relacionamento e negócio.


O mapa digital do futebol latino-americano


Os números da pesquisa ajudam a dimensionar o tamanho dessa transformação.


São bilhões de interações, centenas de milhões de pessoas conectadas às comunidades digitais dos clubes e aproximadamente 1 milhão de conteúdos publicados em apenas uma temporada.


Mas talvez o dado mais interessante não esteja em nenhum ranking.


Está na mudança de lógica.


Durante muito tempo, o principal ativo digital de um clube era a quantidade de pessoas que ele conseguia reunir nas redes sociais.


Hoje, isso é apenas o começo.


A pergunta passou a ser o que o clube consegue construir a partir dessa audiência.


Criar conteúdo próprio?

Conhecer melhor o torcedor?

Consegue entregar dados e audiência qualificada para patrocinadores?


São justamente essas perguntas que ajudam a explicar o movimento do Flamengo com o URU HUB.


E também ajuda a entender por que o conceito de ecossistema esportivo deve ganhar cada vez mais espaço nas discussões sobre o futuro dos clubes.


O futebol latino-americano continua tendo seus gigantes.


Mas o ambiente digital está ficando mais competitivo, mais fragmentado e mais interessante.

E talvez a próxima grande disputa entre os clubes não seja apenas por títulos, jogadores ou patrocinadores.


Também será pela capacidade de construir comunidades próprias pensando em negócios.

O mapa digital do futebol da latino-americano mostra que isso já está acontecendo.

E ainda estamos vendo apenas o começo.


Quer entender melhor como funciona um ecossistema esportivo?


Estou disponibilizando o e-book Ecossistema Red Bull, produzido em parceria com a Doble Cinco, onde uso exemplos do Flamengo e do Boca Juniors para mostrar como clubes e marcas podem ir além da lógica tradicional de patrocínio e construir estruturas mais amplas de conteúdo, relacionamento, experiência e negócios.


ecossistema redbull




Se você trabalha com marketing esportivo, conteúdo, gestão de clubes ou marcas, acho que pode ser uma leitura bastante útil para continuar essa discussão.


Para baixar a versão em espanhol clique aqui: Ecossistema Red Bull (ESP)


Confere aí também o post do comparativo entre a Red Bull e o Grupo City para entender a diferença entre os dois modelos.


Obrigado por acompanhar até aqui e até a próxima!

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Fontes e referências:


2Morrow Sports  / Santos — Relatório Data Peixe: o Santos FC é dos jovens! 



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